Os vencedores definem a história. Acabam decidindo entre
muito relatos possíveis, entre muitas narrativas sobre o que aconteceu, aquela
que deve ser a oficial.
E assim o jornalismo consagra um ponto de vista em
detrimento de tantos outros e a cada segundo vemos uma luta pela definição do
relato legítimo das coisas.
As ocorrências e o mundo da vida podem ser observados de
infinitas perspectivas e portanto pode ser objeto de infinitos relatos.
Com a filosofia não é diferente. Na história das ideias
algumas se consagraram como legítimas, como uma espinha dorsal do que é
confiável. E isso acaba se convertendo em objeto de exame, concurso, livros de
história e etc.
Assim, podemos imaginar uma história de filosofia que comece
por Parmênides, Heráclito e passe por Sócrates, Platão, Aristóteles, Agostinho
e Tomás de Aquino; chegue em Descartes, Kant, Hegel. Conhecendo esses já não
fazemos feio. Mas a verdade é que durante os séculos muita gente disse contrário
desses. E não tiveram a mesma sorte. Tiveram seus textos queimados e mutilados.
Muita gente acha que o mundo é grande e a percepção é um
recorte. E vamos recortando o mundo a cada segundo e que a cada segundo o mundo
se apresenta para nós em uma janela. E como ninguém está no lugar que nós
estamos, o mundo acaba ficando um pra cada um porque em um certo instante ninguém
vê a mesma coisa que o outro.
Até quando conversamos o mundo para você sou eu e o mundo
para mim é você. Então a pergunta é: Como ter certeza se estamos no mesmo mundo
se cada um percebe um mundo diferente? Mas o mundo está cheio de tiranos que
fazem questão que todos concordem com ele, que exigem que todos vejam a mesma
coisa do mesmo jeito e na mesma perspectiva. E assim, as guerras. Guerras por
perspectivas, de percepção.
Quando observamos o mundo acabamos caindo na ingênua crença
que o que vemos é o que é sem perceber que o que é sempre nos escapará. O que
vemos na verdade conta muito mais de nós do que do mundo. Basta pegar um microscópio
e a mesa deixa de ser mesa. No fim tudo o que eu percebo do mundo percebo em
mim.
O mundo não passa do meu próprio corpo afetado pelo mundo. Quando eu
apalpo alguma coisa o que eu sinto não é alguma coisa mas a minha mão apertada
pelo mundo apalpado. O aroma sou eu que produzo, o gosto sou eu que produzo. Papilas gustativas. Vinhos tão
caros para eu mesmo dar-lhes gosto. Da mesma maneira a imagem é luz que reflete
um suposto mundo que nunca teremos certeza se existe mesmo.
O que conta mais é
a nossa capacidade de ver as coisas do que as coisas elas mesmas. O mundo é
como um espelho. Nos informa de nossos afetos, que diante de certa imagem nós
nos alegramos ou nos entristecemos. Graças ao mundo eu posso me encantar com um
sorriso e perceber que eu sou aquele que diante daquele sorriso se encanta.
Graças ao mundo eu descubro que eu sou aquilo que se deixa
afetar pelo mundo que se passa na sua frente e assim vou conhecendo a mim
mesmo. Tarefa importante desde os gregos conhece-te a ti mesmo talvez por não ser
possível conhecer mais nada.
Se fosse possível que alguém fizesse coincidir seus olhos
nos meus também não veria o mesmo mundo porque a percepção que eu tenho depende
de todo o corpo e dele participam o peristaltismo intestinal, rins, fígado, cotovelo,
alegrias, tristezas, dores, esperanças.
A imagem percebida age sobre nós e nos
alegra ou nos entristece. Da mesma maneira a alegria e tristeza que sentimos
agem sobre a imagem e a percepção e definem o mundo que se apresenta. Estranha interação
a final o que terá vindo primeiro a alegria ou o mundo? Talvez os dois, talvez
o olho e a galinha. Sempre pairará sobre nós a dúvida: haverá algum mundo que
percebemos ou toda percepção não passa de um delírio? Será os outros um personagem
do nosso delírio? Ou será que os outros deliram também? Filmes aos quais nunca
teremos acessos. Somos ilhas afetivas, filmes assistidos só por nós.
Adaptado de uma das palestras do professor Clóvis de Barros Fillho

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